Alline Coelho

Minha jornada até aqui

Publicado em


Há pouco mais de vinte anos atrás, eu, meu irmão e meus pais saímos do Maranhão rumo à São Paulo. Meus irmãos mais velhos já haviam feito essa mesma viagem anos antes e somente graças à eles é que o restante da família pôde fazer o mesmo caminho rumo à tão sonhada São Paulo.

De uma escola infantil no norte do país para uma escola no sudeste. Demorei um tempo pra conseguir me camuflar e deixar de ser “a menina do sotaque engraçado”.

Anos depois, já em outra escola, cursei e concluí o ensino médio e foi nesse período que plantei algumas das sementes mais importantes da minha vida. No interior de São Paulo foi que viví toda a minha adolescência e o início da minha vida adulta. Cheguei na cidade com dez anos de idade e muitos medos, afinal, a diferença cultural era enorme. Tudo era novo, tudo era diferente. Mas aos poucos fui me adaptando.

Comecei a trabalhar aos quatorze anos. Meu primeiro emprego foi fazendo biscuit pra uma oficina de artesanato perto da escola. Fui indicada por uma amiga da escola e por isso não tive muita dificuldade em ser contratada.

(Pra quem não sabe do que se trata, fazer biscuit é um trabalho artesanal que implica em produzir objetos decorativos de massa de modelar, massa essa produzida a partir da mistura de amido de milho, cola branca para porcelana fria, conservantes como limão ou vinagre e vaselina).

Eu estudava de manhã e trabalhava lá a tarde. Não durou muito, acho que menos de um ano, mas foi o suficiente para me mostrar que trabalhar era, ali naquele momento, meu maior objetivo de vida.

No ano seguinte, com quinze anos, fui contratada para trabalhar numa clínica odontológica. Confesso que essa foi minha melhor experiência até hoje. Foi nesse emprego que mais fui valorizada e incentivada a evoluir profissional e pessoalmente. Foi trabalhando aqui que pude tirar minha habilitação logo aos dezoito anos. Que comprei meu primeiro celular. Meu primeiro computador. Foi trabalhando aqui que também pude comprar meu primeiro meio de transporte para me tornar mais independente: uma moto. E foi aqui também que dei início aos meus estudos no curso superior de Administração de Empresas. Aprendi e cresci muito nesse emprego e acredito que boa parte do que sou hoje veio desse período da minha vida. Fiquei aqui dos quinze aos vinte e um anos de idade.

Mas o Universo tinha outros planos pra mim, e apesar de achar que ficaria pra sempre na clínica, mais ou menos seis anos depois, agora com vinte e dois anos de idade, fui convidada a integrar um projeto que visava criar do zero uma casa de shows. Éramos em quatro pessoas. Essa foi a minha experiência mais intensa.

Nesse emprego vivi a força total de dedicação que há dentro de mim. Ajudar a criar algo novo exigiu de mim uma entrega profunda. Abdiquei de muita coisa nesse período da minha vida: Larguei o emprego na clínica, a faculdade de administração com o primeiro ano já concluído, me afastei das minhas melhores amigas e da minha vida familiar e social. (É muito estranho escrever isso hoje porque parece que só agora estou me dando conta do quanto aquilo me custou!). Mas enfim. Me entreguei de corpo e alma pra esse projeto e apesar de tudo, foi nele que vivi a experiência profissional mais intensa da minha vida. Aprendi muita coisa.

O primeiro show que produzi foi de um cantor que na época já era muito especial para mim e que continua sendo até hoje: Nando Reis. Foi em 2013. O planejamento e a preparação foram exaustivos, mas valeu a pena cada noite mal dormida. Foi um evento incrível e que me marca até hoje. Depois de tanto trabalho e dedicação, ver aquela multidão de pessoas tão felizes e vivendo algo que ajudei a proporcionar, foi indescritível. E essa sensação é viciante!

Muitos outros shows vieram: Marcelo D2, Pitty, Jota Quest, Roupa Nova, Ana Carolina, Natiruts, Detonautas, NxZero, Ira, Gabriel O Pensador, Sepultura, CPM22, Karol Conka, Zizi Possi, Maria Gadu, Mallu Magalhães e Marcelo Camelo, e tantos outros… Quanta gente eu conheci! Cantores, produtores, prestadores de serviço e colaboradores. Estes dois últimos foram pessoas especialmente muito importantes e com certeza ficarão guardadas em meu coração para sempre, juntamente com meus pais, minhas irmãs, irmãos e minhas melhores amigas, que se mantiveram ao meu lado durante todo esse período, me ajudando efetivamente.

Foi nesse emprego que comprei meu primeiro carro e fiz minha primeira viagem internacional: Londres, Inglaterra. Experiência incrível. Viajar para a Europa abriu meus olhos para o mundo e todas as possibilidades que até então eu desconhecia. Foram tantas experiências: Rio Tâmisa, Hyde Park, Big Ben, London Eye, Piccadily Circus, Sushi Samba, Nobu London, Covent Garden, Royal Opera House e… Her Majesty’s Theatre! foi aqui nesse teatro que assisti a peça de teatro mais linda de toda a minha vida: The Phantom of the Opera. Que experiência indescritível! (Obrigada C&G!!)

Depois de algum tempo, coisas aconteceram na vida pessoal de nós quatro, os idealizadores do projeto, e esses assuntos pessoais acabaram por nos afastar pouco a pouco, até o ponto em que um por um foi deixando o projeto.

• • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •

Em 2015, graças ao convite de uma pessoa muito importante pra mim, a Luana.cc, fiz minha segunda viagem internacional: Montrèal, Canadá. Foi a primeira vez que viajei sozinha pra fora do país. Foi também a primeira vez que pisei na neve. Apenas sete dias, mas foram os sete dias mais mágicos da minha vida! Parc Jean-Drapeau, Rio Saint-Laurent, Biosphere, La Belle et La Boeuf, Tim Hortons… e tantas outras lembranças!

Dois anos depois (2017), agora com vinte e sete anos de idade, a Lu me chamou pra morar com ela em São Paulo. Eu topei. Saí do interior para viver na Capital uma experiência completamente diferente de tudo o que eu já havia experimentado até então.

Essa nova fase da minha vida veio definitivamente para me tirar da minha área de conforto, que por mais estranho que possa soar, era trabalhar, trabalhar e trabalhar.

Foi aqui em São Paulo e com a ajuda e incentivo da Lu, que aprendi a valorizar coisas que antes eu não dava o devido valor, como cuidar de casa e cuidar de mim mesma buscando meu autoconhecimento.

Eu demorei muito para conseguir me desapegar da ideia de que a única forma de vida aceitável era passar a vida trabalhando para outros. Isso estava impregnado em mim de uma forma que até eu mesma desconhecia.

Sofri muito, internamente, me culpando e me julgando por não estar trabalhando fora. Mas agora estou conseguindo sair desse ciclo de auto julgamento e estou me permitindo viver essa experiência de forma mais plena.

Ainda em 2017, eu e a Lu abrimos uma loja online para vender camisetas e produtos geeks para o público entusiasta de criptomoedas. Foi uma experiência muito gostosa de viver. Nós duas criando algo para nós mesmas, trabalhando para nós mesmas. Foi muito gratificante ver nossa ideia se concretizar. E deu tão certo! Foram três anos de loja e mais uma vez, muitos aprendizados.

Nesse meio tempo (2018) eu e a Lu voltamos à Montrèal. Dessa vez ficamos um mês inteiro lá. E eu nem preciso dizer que novamente foi incrível né?! É sempre maravilhoso respirar novos ares!

(Absolutamente nada que eu faça ou fale seria suficiente para expressar a enorme gratidão que sinto dentro de mim, pela oportunidade de compartilhar a minha vida com uma pessoa como a Lu, que, depois de meus pais, é a pessoa no mundo que mais me incentiva e me impulsiona diariamente a ser o melhor de mim como ser humano).

Em vinte e nove anos de idade eu fiz muitas amizades sinceras e duradouras, joguei futebol, lutei karatê, fiz tatuagem, coloquei piercings, fui artesã, fui técnica em higiene bucal, aprendi a pilotar moto, aprendi a dirigir carro, quase aprendi a pilotar avião, vi o mar pela primeira vez, fui produtora de shows, pulei de paraquedas, saltei de paraglider, viajei pra fora do país pela primeira vez, aprendi a nadar, viajei para fora do país pela segunda vez, vi neve, fui empreendedora e viajei pra fora do país pela terceira vez!

Em 2019, eu e a Lu percebemos que o ambiente das criptomoedas estava ficando muito tóxico e contaminado por oportunistas e golpistas. Nós duas fomos criadas por famílias muito corretas e por mais que a gente soubesse que existem pessoas sérias no ramo e que o levam muito a sério, nós não nos sentíamos bem em estar vinculadas a algo de caráter ainda que minimamente duvidoso. Então por esse motivo encerramos o projeto da loja online no final de 2019.

E é aqui que começamos a nossa jornada espiritual.

Em 2020 estou aprendendo a parar pra me olhar e pra me entender: na ausência do frenesi, da rotina de trabalho, quem eu realmente sou? No que eu acredito? O que penso a respeito da vida? O que, honestamente, quero para mim? Que tipos de experiências eu realmente quero ter? Que tipos de conhecimentos? Com o que exatamente quero alimentar a minha Alma e o meu Espírito?

Aproveito este momento para pedir perdão às pessoas que magoei no decorrer dessa minha jornada até aqui. Sei que cometi erros e reconheço todos eles.

Por fim, sou muito grata por ter tido a oportunidade de viver todas as experiências que tive. E agradeço profundamente à todas as pessoas que às proporcionaram, de algum modo acreditando e confiando em mim. 🙏

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *